A Base Nacional Comum – Participe do Debate

logotipo-bnceA Base Nacional Comum Curricular (BNC) é um documento que está sendo proposto pelo MEC neste ano de 2015, que visa estabelecer quais são os conhecimentos e habilidades esperados para os alunos em cada um dos anos/série da educação básica. Até o momento, o Brasil não tinha estabelecido esses conhecimentos e habilidades esperados de forma normativa e detalhada por ano/série.

A necessidade de criação de uma Base Nacional Comum aparece na nossa Constituição Federal, de 1988, no Art. 210. Anos depois, é reforçada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN/1996), em seu artigo 26. A Resolução n.4, de 13 de julho de 2010, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CEB/CNE) é o documento que orienta todos os passos para a elaboração da BCN que deve ser encaminhada para aprovação do Conselho Nacional de Educação até junho de 2016. Outras instâncias como as Conferências Nacionais de Educação e o Plano Nacional de Educação reforçam essa necessidade, dialogando com a proposta da CEB/CNE, de 2010.

Objetivo da elaboração da BCN:

Quando os principais objetivos de aprendizagem e desenvolvimento forem estabelecidos nas Áreas de Conhecimento, nas etapas e nos segmentos da Educação Básica, espera-se que a BNC se torne um instrumento de gestão que oferece subsídios para a formulação e a reformulação das propostas curriculares dos sistemas de ensino dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, em diálogo com as diferenças presentes na escola e com as especificidades que caracterizam o contexto educacional brasileiro.

Além disso, espera-se que a Base seja um dispositivo para (re)orientar as políticas de Avaliação da Educação Básica; (re)pensar e atualizar os processos de produção de materiais didáticos e, também, colabore na discussão da política de formação inicial e continuada de professores”(MEC, 2015)

Antes da elaboração deste documento, o marco existente que buscava definir as habilidades a serem desenvolvidas em cada ciclo do Ensino Fundamental e Médio eram os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), de 1998 e 2000, respectivamente. Tais documentos funcionavam como orientações, não compulsórias nos termos da lei. Apesar de receberem críticas por imprecisões conceituais e por ter sido pouco dialogado quando de sua elaboração, eles tiveram grande influência na produção de materiais educacionais ao longo dos anos 2000 e chegaram às escolas mediados por esses materiais. Houve também alguns desdobramentos desses materiais na própria produção do MEC, especialmente para o Ensino Médio como os PCN + (Ensino Médio/2002) e as Orientações Curriculares (2006)

Com a ampliação do Ensino Fundamental para 9 anos, o Governo Federal deu início em 2006 a um processo de organização de discussões e orientações para a elaboração de novas diretrizes curriculares com o objetivo de atender a nova forma de oferta na Educação Básica. Esse processo se estende até 2013, envolvendo vários atores e várias ações, como a série Indagações sobre currículo e o Programa currículo em movimento e o documento Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica, de 2013. Importante destacar que a Resolução n.4, de 13 de julho de 2010, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CEB/CNE) nasce neste contexto de discussões para a elaboração das novas diretrizes curriculares, que estão se efetivando, neste momento, numa proposta de diretrizes curriculares mais específica.

O documento pretende definir 60% do conteúdo ministrado nas 190 mil escolas de ensinos infantil, fundamental e médio do Brasil, envolvendo as áreas de linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas.  Os outros 40%, chamados de parte diversificada, serão de responsabilidade de estados e municípios, destinados ao ensino-aprendizagem de geografia, literatura e história da região.

A versão preliminar está disponível no site do MEC para consulta pública. Há um espaço para que você se cadastre e sinalize que gostaria de contribuir com sua elaboração

Conheça a versão preliminar da Base Nacional Comum: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/conheca

Para saber mais sobre o histórico de políticas curriculares: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/linha-do-tempo

Movimento pela Base Nacional Comum: http://movimentopelabase.org.br/

Anúncios

Bastante ou Bastantes?

Ressuscitando meus posts sobre temas polêmicos da Língua Portuguesa 🙂

Hoje vi uma criança paranaense falando “bastantes coisas” e fiquei curiosa para entender a regra e se esse uso estava adequado à norma. Não que atender à norma, nesse caso, fosse minha expectativa. Na verdade, a frase dele me fez ter vontade de rever a regra.

Então, achei duas fontes, que vou postar abaixo. Em suma, as fontes dizem que “bastante” pode assumir diferentes funções sintáticas e é isso que determinará a concordância ou não.

  • Como advérbio de intensidade (ligado a verbo, advérbio ou adjetivo) . Assume o sentido de “muito” – Invariável

Exemplo: Os corredores estavam bastante cansados

  • Como substantivo. Assume o sentido de “o suficiente”. Invariável

 Exemplo: “Os animais já comeram o bastante.”

  • Como adjetivo. Seguido de substantivo. Assume o sentido de “suficiente”. Variável

Exemplo: “Há bastantes quadros na parede”

  • Como pronome indefinido. Expressa qualidades ou quantidades indefinidas. Também aparece antes de substantivos, com os quais fará concordância. Esse é o uso menos comum.

Exemplos: 

“Bastantes bancos aumentaram as taxas administrativas”,

“Ela tem bastantes amigos” 

“Vimos bastantes produtos no mercado”

“Eu aprendi bastantes coisas”, o caso que me fez escrever o post! Ou seja, o pequeno paranaense arrasou!

Uma dica para empregar corretamente as palavras bastante/bastantes é tentar substituir esses termos pela palavra “muito”. Se a palavra muito flexionar em gênero e número, emprega-se bastantes, se a palavra muito não flexionar, emprega-se a palavra bastante.

Fontes:

http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/bastante-ou-bastantes-como-usar-2

https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080228180810AALzLTr

http://g1.globo.com/pr/parana/paranatv-1edicao/videos/t/londrina/v/tecnologia-ajuda-no-ensino-da-temida-matematica/4143447/ 

Recife retira livro sobre educação sexual de escolas

‘Mamãe, como eu nasci?’

Letícia Lins

RECIFE. Escrito por um autor premiado pela Academia Brasileira de Letras e considerado referência nacional no tema da educação sexual infanto-juvenil, o livro “Mamãe, como eu nasci?”, de Marcos Ribeiro, foi recolhido ontem das escolas da rede municipal de Recife. A ordem partiu da Secretaria de Educação, depois que o livro despertou polêmica entre professores, alunos e até na Câmara Municipal, onde chegou a ser chamado de “cartilha pornô”.

O livro aborda o sexo sem disfarce e é farto em ilustrações, inclusive com cenas de masturbação. Um menino manuseia o órgão genital ao tomar banho numa banheira, e uma menina faz o mesmo assistindo à televisão.
Sexo será um tema sempre polêmico, até o Brasil se tornar um país desenvolvido. É um assunto tão controvertido quanto aborto, homossexualismo e drogas

A publicação tem 18 anos, é aprovada pelos Ministérios da Saúde e da Educação, e adotada por estados e municípios de todo o país. Só este ano começou a ser distribuída em Recife. Foi entregue a 25 mil alunos com idades entre 7 e 10 anos.

As reações começaram na última quinta-feira, logo após a entrega do livro aos alunos. Na Escola Municipal Santo Amaro, a vendedora Aline Maciel, de 20 anos, disse que chegou a esconder o livro da irmã de 9 anos, temendo a reação do pai, que “é muito tradicional”. Na sexta-feira, o secretário de Educação, Cláudio Duarte, disse que o livro seria mantido. Mas, anteontem, a reação chegou à Câmara. O vereador André Ferreira (PMDB) disse que a obra contém “explicações estarrecedoras” sobre o sexo e, com outros três vereadores, pediu o veto à publicação.

O secretário mandou recolher os volumes, mas disse que a medida não é definitiva:

– Sexo será um tema sempre polêmico, até o Brasil se tornar um país desenvolvido. É um assunto tão controvertido quanto aborto, homossexualismo e drogas. Estamos orientando o recolhimento do livro para construir uma abordagem metodológica. Faremos um debate sobre o tema, ouvindo pais, diretores e professores. Não estamos nos rendendo à crítica política, apenas abrindo o debate técnico.

O Globo, 28 abr. 2010.

O ranço ideológico na educação

07/04/2010
– O Estado de S.Paulo

A exemplo do que ocorreu com as Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as propostas aprovadas pela 1.ª Conferência Nacional de Educação, que foi encerrada na última quinta-feira com a participação do presidente Lula, têm como denominador comum a expansão do dirigismo estatal e a supressão da liberdade de iniciativa no setor. Atualmente, as universidades particulares respondem por 75% das matrículas do ensino superior no País e muitas delas, além de abrir capital, têm recebido vultosas somas de fundos de investimentos para financiar sua expansão.

A justificativa dos participantes da 1.ª Conferência Nacional de Educação é que o ensino superior seria um “bem público”, motivo pelo qual a oferta de vagas por universidades privadas e confessionais teria de ser feita por meio do regime de concessão, como ocorre nas áreas de energia, petróleo e telecomunicações. Para os 3 mil sindicalistas e representantes de movimentos sociais e ONGs que aprovaram essa proposta absurda, se cabe ao governo federal “articular” o sistema educacional, a União deveria “normatizar, controlar e fiscalizar” as instituições de ensino superior do País, por meio de uma agência reguladora, além de estabelecer parâmetros para currículos, projetos pedagógicos e programas de pesquisa para todas elas.

Essa tese colide frontalmente com a Constituição de 88, que é clara e objetiva em matéria de ensino. Ela prevê a livre iniciativa no setor educacional, concede autonomia didática, científica, administrativa e patrimonial às universidades e assegura aos Estados e municípios ampla liberdade para organizar suas respectivas redes escolares.

Como ocorreu nas Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as entidades representadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação ? das quais pelo menos 40 atuam em áreas estranhas aos meios acadêmicos ? em momento algum esconderam sua aversão ao livre jogo de mercado. Segundo elas, por visar ao lucro, as universidades particulares, ao contrário das universidades públicas, não se preocupariam com a qualidade dos serviços que prestam.

A afirmação é falaciosa, uma vez que há instituições privadas muito bem classificadas no ranking do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), assim como existem instituições federais que certamente não seriam autorizadas a funcionar, caso o Ministério da Educação fosse mais rigoroso na aplicação das regras por ele mesmo estabelecidas. É esse o caso das Universidades Federais do Vale do Jequitinhonha, que foi inaugurada por Lula sem ter corpo docente, e do ABC, que funciona em meio a um canteiro de obras atrasadas e abriu seu primeiro processo seletivo sem dispor sequer de laboratórios e de bibliotecas.

Além de investir contra a iniciativa privada, as propostas aprovadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação esvaziam as competências das Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, atribuindo-lhes o papel de meros fóruns consultivos. E, em nome da “democratização” do ensino, defendem a inclusão de integrantes da “sociedade civil organizada” nos órgãos educacionais. Com isso, os Conselhos Nacional e Estaduais de Educação deixariam de existir e sindicalistas vinculados à Central Única dos Trabalhadores, militantes de agremiações partidárias e representantes de ONGs sustentadas por dinheiro governamental poderiam interferir na formulação, implementação e execução da política do setor, colocando os interesses corporativos, políticos e ideológicos à frente do interesse público.

Tão ou mais espantoso do que o ranço ideológico das propostas da 1.ª Conferência Nacional de Educação foi a reação das autoridades educacionais. Elas se comprometeram a incluí-las no Plano Nacional da Educação ? o projeto do MEC que define as principais políticas educacionais dos próximos dez anos e que em breve será enviado ao Congresso. Nos países desenvolvidos, o poder público estimula o aumento dos investimentos privados no ensino superior. O MEC, que na gestão do presidente Lula não conseguiu diminuir as taxas de evasão e repetência, faz o contrário.

Educação – Carta de Demerval Saviani

Educação

“A mídia, de modo geral, incluída a Folha [de S.Paulo], comunga com empresários e políticos o discurso, mais ou menos unânime, de que a educação, na dita “sociedade do conhecimento”, em que nos encontramos atualmente, é a coisa mais importante, devendo ser, portanto, a prioridade número 1 dos governos e da sociedade como um todo.

No entanto, assim como os governos relutam em traduzir a referida prioridade em mais investimentos, a mídia também se nega a traduzi-la no noticiário referente às iniciativas educacionais. A semana que passou foi palco de um dos principais acontecimentos da educação brasileira: a Conferência Nacional de Educação (Conae), aberta em Brasília na noite de 28 de março, e encerrada no dia 1º de abril.

Essa conferência tratou de dois temas fundamentais: a organização do Sistema Nacional de Educação e a elaboração do Plano Nacional de Educação, que deverá substituir o atual. Dos resultados da Conae deverão sair projetos de lei a serem encaminhados ao Congresso Nacional para discussão e aprovação.

Apesar da grande importância desse acontecimento, a mídia falada e escrita nada publicou a respeito. Acompanhei como assinante a Folha para ver o que seria publicado sobre o assunto. A Conae se encerrou e nada encontrei. Como explicar essa omissão da mídia diante de algo que ela mesma proclama como de transcendental importância? Seria tal proclamação apenas uma máscara a disfarçar o desinteresse de nossas elites dominantes e dirigentes no que se refere a uma educação que efetivamente venha a propiciar a toda a população brasileira uma visão clara e consistente da situação em que vive?”

DERMEVAL SAVIANI, professor emérito da Unicamp (Campinas, SP)

Publicada em 5 abr. 2010 na Folha de S.Paulo.

A conferência da educação

– O Estado de S.Paulo

Criadas há mais de duas décadas a pretexto de fortalecer os mecanismos populares de representação política, mediante o envolvimento dos diferentes setores da sociedade civil e instâncias governamentais na formulação de políticas públicas, as conferências nacionais têm sido amplamente utilizadas pelo governo Lula para conquistar o apoio de movimentos sociais, ONGs e corporações profissionais. Apresentadas como alternativa ao modelo da democracia representativa, elas começam com reuniões locais, prosseguem com reuniões estaduais e culminam num encontro nacional, sempre com articulação e patrocínio do governo.

A ideia é que as diretrizes e propostas aprovadas com base nesse “experimentalismo democrático” acabem subsidiando programas governamentais e se convertam em lei. Para os defensores desse modelo, as “práticas participativas em escala nacional” resultam em projetos com mais legitimidade do que os formulados pelos canais legislativos tradicionais. Já foram realizadas 2 conferências no governo Collor, 6 no governo Itamar, 17 no governo FHC e 55 nos dois mandatos de Lula. Tiveram grande repercussão as conferências sobre comunicações e direitos humanos que, dado o viés ideológico que caracteriza o “participacionismo”, culminaram em propostas de cerceamento das liberdades, limitando o direito de informação, impondo dificuldades para a expansão da iniciativa privada no campo da mídia e criando conselhos e órgãos corporativos sob controle governamental.

Por isso, pouco se pode esperar dessa experiência para o aperfeiçoamento da democracia. Convocada para discutir o futuro da educação, a conferência mais recente, realizada essa semana, não fugiu à regra. Foram apresentadas mais de 5 mil propostas e o objetivo do ministro Fernando Haddad é aproveitar as que forem aprovadas pelos 3 mil delegados para definir o Plano Nacional de Educação, que vai estabelecer as diretrizes do ensino público de 2011 a 2020. A ideia é enviar o projeto para o Congresso e mobilizar a base governista para tentar aprová-lo este ano – o que parece bastante improvável.

Defendida pelo Ministério da Educação, a proposta mais ambiciosa postula para o ensino uma estrutura administrativa nos moldes do Sistema Único de Saúde. A ideia é criar um processo decisório compartilhado, por meio de um órgão normativo integrado por representantes do MEC, gestores estaduais e municipais, trabalhadores do setor e organizações sociais. Com isso, a União teria flexibilidade para atualizar o currículo do ensino básico. Já as secretarias municipais e estaduais da educação seriam obrigadas a adotá-lo, mas teriam liberdade para implementá-lo.

De saída, a proposta esbarra em dois problemas. O primeiro é orçamentário – o próprio MEC reconhece que, para ter sucesso, ela precisará de vultosas verbas adicionais. O segundo problema é político. A proposta compromete a autonomia dos Estados e municípios, consagrada pela Constituição. Além disso, não faz sentido esvaziar o Conselho Nacional de Educação, que é integrado por especialistas, repassando as prerrogativas para um órgão normativo com representação de “trabalhadores e organizações sociais”.

Mais uma vez uma conferência nacional foi utilizada com propósitos corporativos. E isso fica ainda mais evidente nas propostas que tratam de salários e de carga horária. Os docentes querem ganhar mais e trabalhar menos. Em nome da isonomia, os servidores administrativos das escolas e secretarias querem as mesmas regalias pleiteadas pelos professores. De onde sairia o dinheiro para tanta gastança? – indagam alguns secretários municipais de educação. Da flexibilização da Lei de Responsabilidade Fiscal e da aprovação de uma lei que obrigue a União a aumentar os investimentos em educação em 1% do PIB por ano, até chegar ao patamar de 10%, em 2014, responderam os participantes da 1.ª Conferência Nacional da Educação.

E, assim, a conferência da educação provou ser do mesmo gênero das conferências de comunicação e direitos humanos. Produziu textos absolutamente inúteis para orientar ou mesmo subsidiar políticas públicas absolutamente inviáveis mesmo se o Brasil “continuar nas mãos de Lula” – o que pode não acontecer.

Material não passa por avaliação do ministério

Associação diz ter pedido ao MEC que avalie apostilas, mas ainda não houve resposta
Defensores do sistema afirmam que método poupa parte do trabalho pedagógico e facilita acompanhamento dos pais

ANTÔNIO GOIS

DA SUCURSAL DO RIO
Os tradicionais livros didáticos perdem cada vez mais espaço para as apostilas elaboradas por redes de ensino privado. Levantamento feito pela Folha mostra que ao menos um terço dos colégios particulares já adota esse sistema de ensino em substituição ou complemento dos livros.

Dos 18 grupos identificados, apenas três -Etapa, Expoente e Ser- não quiseram divulgar seus números. Com as informações dos 15 demais sistemas, foi possível calcular que ao menos 7.000 escolas (33% do total de 21 mil instituições particulares de ensino fundamental e médio do país) trabalham com as apostilas.

Ao entregar para o professor um material estruturado e com planos de aula a serem seguidos, poupa-se parte do trabalho de coordenação pedagógica. Fica também mais fácil para pais e alunos acompanharem se o conteúdo previsto está, de fato, sendo transmitido.

Especialista afirmam, porém, que o sistema pode tirar a autonomia do professor e, em alguns casos, dar pouca margem para trabalhar conteúdos regionais em escolas fora do Sul e Sudeste, onde se concentram os grupos educacionais responsáveis pelas apostilas.
Outro aspecto negativo é que, ao contrário dos livros didáticos, as apostilas elaboradas pelos grupos não são avaliadas pelo Ministério da Educação.

A Abrase (Associação Brasileira de Sistemas de Ensino) já propôs ao ministério que faça uma avaliação oficial, mas, afirma a entidade, ainda não houve resposta do MEC.

Origem

Os sistemas surgiram a partir de cursos pré-vestibulares de São Paulo e Paraná na década de 70, mas foi nos anos 90 que cresceram aceleradamente.
Hoje já são vendidas apostiladas para todas as etapas da educação básica. Por ano, o custo varia entre R$ 100 -em séries iniciais do ensino fundamental e educação infantil- e R$ 1.000 -caso das apostilas voltadas a pré-vestibulares.

Executivos desses grupos ouvidos pela Folha se dividem em relação ao potencial de crescimento. Há quem ache que, no setor privado, chegou-se perto do teto. Mas também quem aposte que ainda há muito a expandir.

Estimativas de faturamento do setor variam de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão por ano.
Com o crescimento acelerado dos sistemas, empresas que lucravam com venda de livros didáticos, como as editoras Moderna, FTD, Ática/Scipione e a livraria Saraiva, tiveram de entrar no setor.

José Arnaldo Favaretto, diretor de sistemas de ensino da Saraiva, afirma também que os livros didáticos tiveram que se adaptar aos sistemas, incorporando alguns serviços.
“Hoje, muitas editoras agregam ao livro preparação de planos de aula e orientação ao professor, que são oferecidos pelos sistemas de ensino”, diz ele.

Além de apoio pedagógico, os sistemas atraem também escolas em busca de reforço de marketing, associando-se a uma marca mais forte.

Professor é mais importante que apostila, diz diretor

DA SUCURSAL DO RIO

Usando ou não apostilas elaboradas por sistemas de ensino, diretores de escolas que têm ou tiveram experiência com esse material concordam que ele nunca será mais importante que o professor.

No colégio Pentágono, em São Paulo, a diretora-geral Gracia Klein afirma que desistiu de trabalhar há três anos com sistemas de ensino.

“Nossa avaliação foi que o livro didático era menos restritivo [que o material apostilado] e permitia um aprofundamento maior dos conteúdos transmitos aos estudantes. Mas não acredito que exista livro didático ou sistema de ensino perfeito. É o professor quem faz a diferença em sala de aula”, afirma a diretora.

Já no colégio I.L.Peretz, também de São Paulo, a diretora-geral, Gita Guinsburg, está satisfeita com o uso de um sistema no ensino médio.

“O conteúdo vem todo organizado, o que facilita o trabalho do professor, e o material é mais barato para os pais. Mas isso não é suficiente para garantir a qualidade do ensino. A alma da escola é a qualidade do professor”, diz Gita.

Escola top não precisa de apostilas, diz pesquisadora

Para Paula Louzano, colégio de elite pode investir em corpo docente mais qualificado

Doutora em educação por Havard (EUA) afirma que sistema agrega mais em instituições com mensalidades mais baixas

DA SUCURSAL DO RIO

Apesar de haver quem defenda que qualquer escola pode se beneficiar com um sistema de ensino, a maioria dos especialistas consultados pela Folha afirma que colégios de elite, que podem cobrar mensalidades maiores e contratar um corpo docente altamente qualificado, têm pouco a ganhar adotando apostilas.

Paula Louzano, doutora em educação pela Universidade Harvard (EUA) e autora de estudos sobre o uso de sistemas de ensino em redes públicas no Brasil, afirma que a eficácia desses métodos dependerá do contexto de cada escola e do perfil do corpo docente.

“Numa escola em uma cidade pequena e que cobre uma mensalidade baixa, esse sistema pode agregar muito. Mas, numa cidade como São Paulo, há muitas escolas que não precisam desses sistemas para ter qualidade, pois já têm uma equipe bem capacitada que não dependerá de um material estruturado para fazer um bom trabalho”, diz ela.

Guilherme Faiguenboim, diretor do sistema Anglo e presidente da Associação Brasileira de Sistemas de Ensino, também concorda com a ideia de que nem todas as escolas podem adotar as apostilas como método pedagógico.

“Escolas muito boas e muito caras têm condições de contratar professores que saibam fazer bom uso de sua autonomia. Colégios muito baratos e com professores despreparados também terão dificuldade para se adaptar. A maioria está nesta faixa intermediária”, afirma.

Como muitos desses sistemas têm atuação também na rede pública, o tema começa a despertar atenção de gestores e especialistas.

A única pesquisa empírica feita até o momento com base nos dados do Ideb (indicador do MEC de qualidade da educação pública) não apontou resultados conclusivos.
O estudo, da Fundação Getulio Vargas, mostrou que municípios que passaram a utilizar sistemas tiveram, em média, resultados melhores. No entanto não foi possível atribuir essa diferença exclusivamente ao uso do métodos.

Frase

“Numa escola em uma cidade pequena e que cobre uma mensalidade baixa, esse sistema pode agregar muito. Mas, numa cidade como São Paulo, há muitas escolas que não precisam desses sistemas para ter qualidade, pois já têm uma equipe bem capacitada que não dependerá de um material estruturado para fazer um bom trabalho”

PAULA LOUZANO
doutora em educação pela Universidade Harvard (EUA)

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0304201001.htm