Caetano Veloso, você não sabe de tudo!

Fico impressionada com a postura “elitizada” de Caetano Veloso, que critica veementemente o modo de falar do Lula. E o pior, com argumentos absolutamente ultrapassados, por serem meramente ideológicos.

A linguística avançou e reconhece que não existe uma única forma de se falar português, embora algumas formas tenham mais prestígio social, por serem pertencentes à elite. É o caso dos “sotaques” de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul… Esta escolha por determinadas variantes não é pelo fato destas serem tecnicamente melhores, mas porque elas são faladas por quem detém o capital econômico do país.

Acho muito estranho Caetano Veloso não saber disso.

Sírio Possenti, um dos maiores linguistas do Brasil, comenta as bobagens que Caetano falou na entrevista. Destaco o exemplo da Língua Francesa, que elucida claramente o que chamamos de evolução da língua oral (sem  juízo de valor), que tem como sua principal característica a busca pela economia e concisão.

Dá-lhe Possenti!

Caetano, os artigos e os nomes

Sírio Possenti
de Campinas (SP)


Afirmação de Caetano é de quem não entendeu nem as aulas
de gramática do ginásio, diz Possenti (foto: Divulgação)

Prometo que esta é a última vez que falo de Caetano Veloso neste espaço. Pelo menos sobre os temas que têm alimentado a coluna.

Recebi uma indicação de endereço no qual poderia assistir a uma entrevista – na verdade, ele leu um texto, parecia um cara depondo numa CPI – que Caetano deu em Portugal. Contou que tinha se metido numa “pequena confusão” – os termos são meus – no Brasil, ao declarar que Lula era analfabeto etc. Em seguida, fez uma declaração que pode ser considerada uma defesa de seu governo (um marqueteiro ainda vai pescar essa pérola, eu acho). Disse que Lula faz um governo épico (sic). E acrescentou – com um riso maroto – que não consegue imaginar alguém sendo eleito presidente em outros países, como França, Portugal e Argentina, se não concordar artigos com nomes (seu sorriso desmentia o que tinha dito, eu acho). Finalizou dizendo que os lingüistas gostam de Lula porque ele fala como os que estudaram pouco.

São as duas afirmações finais que quero comentar – brevemente, prometo.

Eu não sei com quem Caetano conversa, agora que não se reúne mais com os concretistas que falavam de Jakobson. Eu converso bastante com lingüistas, no meu local de trabalho e em eventos aos quais eles comparecem. Declaro que nunca ouvi um lingüista dizer algo parecido com o que Caetano acha que os lingüistas acham. A tese poderia até ser interessante para quem considerasse bom que governantes tivessem um certo tipo de identificação com o “popular” (acontece que, curiosamente – ou não! – o povo prefere quem fale corretamente. Já se disse que povo gosta de luxo).

Muitas vezes, aliás, ouvi colegas dizendo que o presidente passou do ponto ao dizer certas coisas e que no dia tal deu uma escorregada, que a situação era formal etc. Ou seja, são comuns as críticas à linguagem do presidente, sejam devidas a suas posições políticas, sejam devidas a aspectos de sua linguagem. Mas, em geral – como as pessoas sabem do que estão falando, no caso – tais críticas são mais comumente dirigidas a determinadas expressões do que a construções gramaticais específicas – como a comentada por Caetano.

Caetano continua não entendendo o que os lingüistas (as teorias lingüísticas) dizem sobre o caso. Nenhum linguista idolatra Lula porque ele fala como os que não estudaram. O que os lingüistas dizem – e isso os distingue de outros profissionais – é apenas que pessoas que não estudaram também falam uma língua (português, no caso). Que falar de maneira diferente (Os político… Eu disse pro Obama…) não é falar errado. Que uma análise da língua, de sua estrutura, mostra que se trata de variantes etc. Que elas são regidas por regras gramaticais. E que certas variantes são marcadas socialmente etc.

Em suma: que certas formas de falar português (ou inglês) são diferentes, populares e não ERRADAS. Que, portanto, é um equívoco técnico dizer que alguém não sabe (nem) falar. Ou seja: lingüistas podem gostar ou não de Lula e de seu governo (obviamente, não há unanimidade). O que eles dizem ou diriam como lingüistas é apenas que é errado dizer que ele não sabe português. Só isso. O que passa longe de significar que gostam de Lula PORQUE ele fala assim ou assado.

Finalmente, a questão “gramatical” que Caetano mencionou: que ninguém seria eleito em outro país se não concordasse artigo com nome. A afirmação é um escândalo, em termos técnicos. É de quem não entendeu nem as aulas de gramática do ginásio, sempre tão defendidas como o verdadeiro discurso (Caetano fez isso, Ferreira Gullar também faz isso de vez em quando).

Ora, nos dialetos brasileiros em que ocorre uma concordância diferente da aprendida na escola (os políticos, os panetones), é o nome que eventualmente não recebe marca de plural. E é exatamente o artigo que recebe esta marca: o que pode ser VISTO em expressões como OS POLÍTICO, OS PANETONE.

Finalmente, para mostrar que, de fato, Caetano observa precariamente esse tipo de material (as línguas): imagine um candidato a presidente na França (foi ele que mencionou o país!) que fizesse essa concordância tal como Caetano acha que deve ser feita. Ele teria que pronunciar, segundo Caetano (se quisesse dizer “as francesas”), “les françaises” assim: les francézes. Mas, se fizesse isso, seria alvo de chacota, porque, para ser “correto” – é disso que Caetano fala – ele deve dizer le francéz. Ou seja, sem marca de plural no nome. Ele deveria ter dado outro exemplo… Ou dito que o raciocínio poderia ser estendido a outros casos, por analogia. Mas então ele não precisaria ser “corrigido” a cada declaração!

Outro erro de Caetano (a lista parece interminável): as gramáticas dizem que é o artigo que deve concordar com o nome. Acontece que em OS PANETONE – a forma popular – é o artigo que está no plural. Como ele acha que isso deveria ser “ensinado”?

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4148721-EI8425,00-Caetano+os+artigos+e+os+nomes.html

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