‘É preciso mudar internamente’ – Mia Couto fala sobre o continente africano e o aquecimento global

Escritor e biólogo, Mia Couto alerta para riscos de se encobrir falência política com discurso catastrófico associado ao clima

Pouca gente sabe, mas o escritor moçambicano Mia Couto é biólogo e trabalha como consultor ambiental em seu país. O autor de “Terra sonâmbula” e “Antes do nascer do mundo” (Companhia das Letras) fala sobre o aquecimento global e a elevação das temperaturas do planeta com a mesma poesia e contundência de sua prosa ficcional. No meio do intenso noticiário sobre a Conferência de Clima das Nações Unidas, em Copenhague — que termina dia 18 — Couto não perde de vista a questão política por trás dos debates. “O modelo atual de gerir o mundo, de fazer economia, já decretou falência”, afirmou em entrevista ao GLOBO em recente passagem pelo Rio. “Precisamos perceber isso e não encobrir essa falência política com um discurso de fim de mundo associado à questão do clima.”

Roberta Jansen

O GLOBO: Como anda a relação do homem com o planeta? MIA COUTO: A relação mudou pouco em termos da arrogância do discurso. O homem se tinha como substituto de Deus, com poderes além do real. Agora, com esse discurso de culpa, de responsabilidade (pelo aquecimento global), ele se mantém nesse lugar de arrogância, como fator determinante de processos que, muitas vezes, continua não entendendo; de uma complexidade para além do que somos capazes de captar.

O senhor não acredita no aquecimento global? COUTO: Acredito no aquecimento global, mas não sei se tem essa dimensão dramática que provém de certezas que não necessariamente temos. Acredito que há variáveis que não sabemos ainda equacionar. Sei que o clima é uma ciência que se banalizou, que todos pensam que sabem. E há muita confusão entre projeção e previsão.

Como o senhor vê a relação do homem com as demais espécies do planeta? COUTO: Essa relação é marcada por um discurso que nos coloca do lado de fora. Há três revoluções na História que nos descentraram. A primeira é a de (Nicolau) Copérnico, ao afirmar que a Terra não é o centro de tudo.
A segunda, é a de (Charles) Darwin, que mostrou que não somos o topo de uma escala evolutiva. E a terceira é de (Sigmund) Freud, que disse que o consciente não comanda tanto quanto pensávamos. Mas, por mais revolucionários que tenham sido, esses discursos não são tão poderosos quanto o religioso, que nos coloca num lugar divino. Todo o nosso olhar sobre o Universo e a Terra é ainda antropocêntrico.

E com os animais? COUTO: A religião africana, a que não tem nome, dos antepassados, tem uma representação muito curiosa. Diz que o homem não é o único que tem alma.
É possível invocar espíritos de animais também, para interceder em conflitos. Acho que é uma declaração de humildade.
Ter um lugar partilhado é sinal de uma civilização superior.
Mostra que homens e animais estão em pé de igualdade perante Deus.

O que o senhor espera da Conferência do Clima das Nações Unidas, em Copenhague? COUTO: Se correr tudo bem, a conferência é só um passo que pode obrigar países como EUA e China — os maiores emissores de CO2 — a, depois, virem a ter resoluções mais favoráveis.

O senhor acha que somos capazes de criar um novo modelo econômico, estabelecer uma nova matriz energética, uma nova forma de consumo, mudar nossa maneira de nos relacionar com o planeta, em um único acordo climático? COUTO: Acho que somos capazes de construir um outro modelo econômico, só não sei se vai dar tempo. Não se trata de uma questão de tecnologia ou capacidade, mas talvez de acomodação diante de interesses monetários poderosos. O fato é que precisamos pensar nesse modelo de gerir o mundo, de fazer economia. O modelo atual já decretou falência. Precisamos perceber isso e não encobrir essa falência política com um discurso de fim de mundo associado à questão do clima.

A despeito das promessas e das metas, a Floresta Amazônica continua ainda sendo muito desmatada — com uma contribuição grande às emissões de CO2. O mesmo ocorre nas florestas tropicais africanas.

Como o senhor vê esse problema do desmatamento? COUTO: É um problema muito mais sério do que se pensa em África. Para além do problema das madeireiras, em Moçambique pelo menos, há a questão das práticas (agrícolas) antigas, tradicionais, que entram em conflito com o equilíbrio ecológico.
Com a prática de corte e queimada, grande parte de Moçambique arde todos os anos.
Não havia problema nessas práticas quando a densidade populacional era pequena, mas agora se tornaram insustentáveis.

Um estudo das universidades da Califórnia e de Stanford, publicado há poucos dias, mostra que o aquecimento global fará aumentar os conflitos civis na África. Como o senhor vê os efeitos da elevação das temperaturas sobre o continente? COUTO: Há uma tentativa de despolitizar a relação injusta entre o primeiro mundo e o terceiro, entre o norte e o sul. Essa relação já tomou o nome de imperialismo, de globalização. Agora, se procura escamotear o problema, transferí-lo para esse grande culpado, o clima; jogar algo que deixou de ter autoria nas costas do aquecimento. Mas se trata de algo específico. A miséria tem origem nas elites locais, de mãos dadas com as elites do primeiro mundo. Políticas neoliberais são as grandes produtoras de miséria, do drama da sobrevivência imediata. E, depois, conduzem a práticas como desmatamento de encostas, destruição de florestas.

Então o aquecimento é um agravante de uma realidade já estabelecida? COUTO: Se for confirmada essa tendência de aquecimento da atmosfera, tudo isso se torna ainda mais grave. Mas nosso olhar sobre o mundo não pode ser desviado, é preciso não perder o foco. Que o discurso do clima não seja como a lixívia (tiramanchas), ao permitir uma certa lavagem de responsabilidades.
Não se pode pedir aos países do terceiro mundo que governem bem e, ao mesmo tempo, fragilizem o Estado. Em Moçambique, nem sabemos o que acontece conosco. Não temos inventários de florestas e de faunas para confrontar com essa visão apocalíptica que nos chega de fora.

O senhor acha, então, que os ricos devem pagar toda a conta do aquecimento? COUTO: Não sou adepto desse discurso de apontar culpa só para os ricos. Mas se é realidade que os problemas são globais e que o desenvolvimento dos ricos baseou-se no sacrifício dos processos naturais em escala mundial, têm que assumir essa corresponsabilidade. Ao mesmo tempo, tenho medo desse discurso de responsabilização. Os países pobres não devem se acomodar num discurso vitimista.
Eles devem criar suas próprias agendas, ter suas próprias certezas. E, quando chegarem à mesa de negociação, que tenham seu próprio pensamento.
E que este não seja pobre.

Uma das consequências da elevação das temperaturas do planeta é o deslocamento de grandes contingentes populacionais.
Na África, isso pode ser especialmente grave. Como o senhor vê o problema? COUTO: De maneira muito sutil, estão existindo em escala inimaginável grandes ondas de migração.
Da África para a Europa, e da África para os Estados Unidos.
E dentro da África também.
Todos os meses morrem várias pessoas em jangadas e barcos buscando um lugar melhor para viver. O cenário já está presente, não é uma projeção para o futuro.
E essa relação desigual é que faz com que os mais ricos fiquem cada vez mais ricos e os mais pobres mais pobres.

Então o senhor não acha que haja melhorias nas relações entre ricos e pobres, nas desigualdades? COUTO: Não, absolutamente não. Mas há fatores novos no mundo que podem ser imprevisíveis.
Os donos do mundo estão mudando e, neste novo turno, há países do sul, da Ásia, da América Latina. Isso pode ser importante porque, em vez de uma visão maniqueísta, dual, de centro e periferia, passamos a ter vários centros e várias periferias.
E dentro dos próprios países de economia forte há focos de miséria. E o aquecimento global não pode ser o écran que nos impede de ver além, de ver que esse modelo está falido.

Uma das mais dramáticas consequências do aquecimento é o desaparecimento das pequeninas nações insulares, como Kiribati e Tuvalu, que podem submergir. O que pode ser feito? COUTO: Mas há países desaparecendo por outras razões, como Somália, Chade, República Centro-Africana. É uma armadilha, insisto, transformar em natural assuntos profundamente políticos e sociais. Há uma tentação de naturalizar processos, de entregar ao domínio da natureza assuntos ligados à intervenção humana, como a elevação do nível do mar. Outra coisa perigosa é essa armadilha cultural, comportamental, de criar receitas para o cidadão comum contribuir, como desligar a geladeira, quando as grandes economias se fazem no domínio das grandes políticas.

O mundo está se tornando um lugar mais inóspito para o homem? COUTO: Sim, mas não é a primeira vez que isso acontece.
Nas outras crises ecológicas, no entanto, o homem se mudou, migrou, achou espaços novos.
Mas já não há espaços novos.
Terá que ser o espaço interior, de nossa compreensão das coisas do mundo. É preciso mudar internamente.

Fonte: O Globo, 12 dez. 2009.

2 thoughts on “‘É preciso mudar internamente’ – Mia Couto fala sobre o continente africano e o aquecimento global

  1. Olha, antes de mais nada, obrigado pela transcrição desta instigante entrevista do Mia Couto pela Roberta Jansen sobre a questão ambiental.

    Eu a havia lido e ao procurar no Globo, não consegui acessá-la. Ou barbeiragem busquídica minha, ou mais provavelmente o simples detalhe que informações em sítios privados não tem garantias. Paguei o papel mas no digital não pude levar.

    Enfim, ao que interessa, suas posições são de uma lucidez com as quais as mídias velozes não se interessam ao que é essencial. Uma quase analogia do pensamento de Exupery, o essencial é invisível ao…espetacular ribombante que não se pode deter.

    A questão da qual não podemos nos cegar é que a ficção da competitividade eternizada, baseada nos nossos instintos mais baixos de sobrevivência, pré-racionais, codificada com mantras do tipo lucratividade sempre crescentes, é isso o que não mais pode perdurar, às custas da auto-extinção e de mais a maior parte da fauna/flora terras-e-mares.

    Mas como mudar não só economizando na energia das geladeiras, na luz do banheiro, dos scaos plásticos e por aí vai.

    Ó Couto, e agora por onde iremos, como fazer?
    Um belo desafio e a nós de buscar, juntar, costurar…

    Um grande abraço e obrigado mais uma vez.

  2. Oi Julci,

    Muito obrigada pelo seu comentário em meu blog. É sempre bom receber elogios de alguém que é mestre em educação. Aquele é de trabalho, e procuro fazer uma crítica bem humorada sobre o programa.

    Já este aqui http://www.sicontar.wordpress.com é o meu pessoal. Enquanto descubro que rumo ele irá tomar, sigo publicando minhas descobertas pela net, filmes e psicanálise(além de algumas besteiras).

    Gde beijo,

    Silvia Contar =)

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