Momento Num Café

Quando o enterro passou

Os homens que se achavam no café

Tiraram o chapéu maquinalmente

Saudavam o morto distraídos

Estavam todos voltados para a vida

Absortos na vida

Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado

Olhando o esquife longamente

Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade

Que a vida é traição

E saudava a matéria que passava

Liberta para sempre da alma extinta

Manuel Bandeira

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Um dos meus colegas de mestrado fez uma brilhante observação sobre este poema. Ricardo nos alertou para o fato de que Manuel Bandeira inverte a lógica do mito da caverna de Platão, em que o mundo inteligível (mundo das ideias) é perfeito, e que o mundo sensível, material, mutável… é imperfeito. Assim, não é mais a alma que se liberta do corpo para retornar ao mundo perfeito, mas é o corpo que, finalmente, se liberta da alma.


One thought on “Momento Num Café

  1. Ai, que bom matar a saudade desse poema bonito, triste, profundo…
    Fiz um trabalho sobre ele em IEL (!) então o poema também me lembra os dias em que com ele convivi enquanto buscava decifá-lo, analisá-lo, para entregar minha observações ao Mazzari.
    Ô tempo bom!
    rs…
    beijo e obrigada pela inspiração

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