A regra na aparente falta de regra

Há de se perguntar por que o plural nem sempre é marcado nas construções que o brasileiro usa em seu cotidiano

Lingüistas gostam de mostrar que o que parece erro resulta de outra regra. Casos mais ou menos fáceis são os da marcação de plural. Se uma teoria tem pelo menos adequação observacional, revelará que construções como “os menino”; “os livro”; “as casa”; “essas coisa”; “três carro”; “dez real” seguem uma regra própria: o plural é marcado regularmente na primeira posição do sintagma e não em todas as posições em que a marcação é possível, como ocorre no português culto (os livros, os meus livros, os meus livros verdes, etc.). Muita gente confunde esta explicação com a defesa do uso dessas formas populares / informais na escola / escrita, o que é, evidentemente, uma superinterpretação.

A demonstração de que aí existe uma regra (e não propriamente um erro, para o que seria necessário que, em cada fala de cada falante, a construção fosse diferente, por que só assim eles falariam “de qualquer jeito”, como se diz) fica mais fácil quando se mostra que as línguas não têm obrigação de marcar o plural sempre que isso é possível.

Por exemplo, o inglês põe marca de plural só no nome, e por isso suas construções são do tipo the bad boys ou my boys em que the, my e bad ficam sempre “no singular” (cf. the bad boy e my boy). Alguns dirão “mas isso é em inglês”, ao que se pode responder “mas aquilo é em português formal / escrito / culto”.

Talvez a força do argumento aumente mostrando que coisa bem parecida ocorre em francês, que não devemos nos deixar enganar pela escrita, porque franceses cultos não pronunciam o s de plural do substantivo em, por exemplo, les livres, les hommes etc. (a pronúncia do s do artigo depende de como começa a palavra seguinte). Ou seja, em francês culto se empregam construções que lembram mais Os menino do que Os meninos.

Um caso bem interessante, alvo da chacota até mesmo de “especialistas”, que o consideram simplesmente um erro, são construções em que ocorre sempre a forma pronominal “se” como reflexivo, qualquer que seja o sujeito. Pessoas comentam “Fulano disse: ‘eu se atirei'”, e riem, na certeza de que seu riso é de superioridade, quando é só de semi-ignorância, para dizer pouco.

Vou mostrar que há método na loucura, no caso, motivos para o “erro”. Para isso, é necessária a colaboração empirista, digamos assim, do leitor. Isto é, ele deve observar os fatos com algum cuidado, e sem preconceito. Eles permitem concluir que este “se” é mesmo especial.

Vamos, pois, aos dados, com base sempre e apenas nas gramáticas normativas, isto é, sem considerar outras variantes. O argumento passa pela distribuição das formas que os pronomes assumem conforme sua função sintática.

O “se” das regras

PRONOMES EM POSIÇÃO DE SUJEITO

1. Eu chego sempre antes.
2. Tu viste uma batata quente.
3. Ele viu uma barata tonta.
4. Nós vimos uma pessoa honesta – acredite!
5. Vós vistes falantes antigos (ainda os há).
6. Eles viram às bandeiras despregadas.

PRONOMES EM POSIÇÃO DE OBJETO DIRETO

7. Ele me viu.
8. Ele te observava à socapa.
9. Eu o/a arremessei à distância.
10. Ele nos vendeu ao inimigo.
11. Ele vos salvou do perigo.
12. Nós os/as elegemos para isso.

PRONOMES EM POSIÇÃO DE OBJETO INDIRETO

13. Ele me obedece.
14. Eu te desobedeço.
15. Eu lhe digo que não.
16. Os amigos nos deram bola.
17. Os inimigos vos deram uma banana.
18. Os filhos lhes disseram que amor era pouco.

O “se” e os pronomes reflexivos

Vejamos, finalmente, o pulo do gato: o caso dos pronomes reflexivos, isto é, das formas pronominais que ocorrem quando o sujeito e o objeto designam a mesma pessoa.

19. Eu me vejo.
20. Tu te vês.
21. Ele se vê.
22. Nós nos vemos.
23. Vós vos vedes.
24. Eles se vêem.

25. Nós nos abraçamos,
26. Vós vos ofendestes em português arcaico

Verifica-se que a forma é a mesma para o objeto direto, o indireto, o reflexivo e o reflexivo recíproco (evidentemente, não pode haver reflexivo recíproco com sujeitos singulares – eu, tu, ele). Ou seja, estes pronomes pessoais não têm formas especiais para marcar reflexividade.

27. Eles se beijaram.

Nesta frase, ocorre de novo a forma diferente, especializada em “reflexividade”, exclusiva da terceira pessoa.

As outras pessoas “escolhem”, para a função de objeto direto idêntico ao sujeito, as mesmas formas que ocorrem nos outros casos de objeto direto e nos casos de objeto indireto. Outro detalhe: para marcar reflexividade, a terceira pessoa do singular e a terceira do plural têm a mesma forma, “se”.

Não é nenhuma idiotice pensar, com base nesses fatos, que o português é uma língua que só tem uma forma para o caso reflexivo, isto é, especializada em marcar reflexividade, e essa forma é “se”. Um aprendiz da língua, diante desses dados, poderá muito bem fazer a seguinte hipótese, errada, mas inteligente: já que “se” é especializado em reflexividade, isto é, marca apenas os casos de reflexividade, então só essa forma pode marcar reflexividade, não importa qual seja a pessoa.

É por isso que ouvimos “eu se machuquei / se dei mal”, “nós se atiramos na lama / se mandamos de lá correndo”, “tu se jogou / se ferrou”. Repito: errado, mas não trivial. As construções têm método, cheiram a inteligência. Não ocorrem ao acaso, desatinadamente. Para que se tratasse de um erro de verdade, deveríamos ouvir “Nós me ferramos”, “Eles te ferraram”, me e te sendo co-referentes do sujeito (me = nós; te = eles) Ora, isso não ocorre nunca, por mais “ignorante” que seja o falante.

Todos os que “erram” o fazem da mesma forma – com se em todas as pessoas. Ora, se muitos erram, e sempre do mesmo jeito, então há uma regra. O Conselheiro Acácio poderia muito bem ter dito que “se é regular, então há regra”.

Língua Portuguesa, ed. 29, abr. 2008.

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