O LEGADO CONSTRUTIVISTA DE DUAS DÉCADAS

Por Ana Lagôa

http://intervox.nce.ufrj.br/~edpaes/construt.htm

Vinte anos depois de publicada, a teoria de Emília Ferreiro para explicar como as crianças se alfabetizam é ainda desconhecida para a maioria dos professores do continente latinoamericano. Filha do construtivismo de Jean Piaget, a psicogênese da língua escrita foi confundida com um método de ensino e, envolvida na onda experimentalista herdada dos anos 70, chegou a ser vista com desconfiança por pais e professores. Nesta edição, o caderno de Educação do JORNAL DO BRASIL ouviu a pesquisadora Telma Weisz, que há quase duas décadas forma professores na psicogênese da língua escrita e traz, também, depoimentos de outras professoras e pesquisadoras que trabalham com o construtivismo. Uma edição em homenagem a Emília Ferreiro por ter provado, com sua pesquisa, que as crianças pobres também são capazes de aprender.

– A teoria da psicogênese da língua escrita fez vinte anos e não se pode dizer que seja conhecida no Brasil, a não ser por uma parcela dos educadores. Há muita confusão entre a psicogênese e o construtivismo. Afinal, o que é o construtivismo?

– Muita gente ainda pensa que o construtivismo é um método de ensino. E ele não é. O construtivismo se refere ao processo de aprendizagem e este processo era visto historicamente a partir de duas diferentes teorias de conhecimento.

– Quais?

– A empirista, que parte do princípio de que o conhecimento está fora do sujeito e que aprender é pô-lo para dentro através dos sentidos, do ensino e da experiência. Claro que esta definição simplifica a teoria empirista para facilitar o entendimento. Para os empiristas é o ambiente que permite o aprendizado, que garante o conhecimento e se constitui no elemento mais importante no processo de aprendizagem.

– E a outra vertente?

– A outra vertente epistemológica trata a aprendizagem – aqui também simplificando – como um processo de dentro para fora, quase de iluminação.

– E onde entra o construtivismo? É uma nova vertente?

– Ele, na verdade, não é uma terceira corrente. Pelo contrário, ele é uma tentativa de síntese, no sentido dialético, de ultrapassar a contradição entre as duas posições epistemológicas.

– Como?

– O construtivismo diz que existe um sujeito que conhece e que o conhecimento é alguma coisa que se constrói pela ação desse sujeito. E que o ambiente tem papel muito forte nesse processo.

– O que é mais importante: o ambiente ou o sujeito?

– Na concepção construtivista da aprendizagem o peso de ambos é idêntico. O conhecimento sempre acontece a partir do sujeito, mas o sujeito é conhecedor em um determinado ambiente cultural. O sujeito só pode aprender aquilo que estiver ao alcance do seu esforço cognitivo.

– Para entender essa discussão teremos que ler toda a obra de Jean Piaget ?

– Não. Mas não se pode fazer uma leitura superficial. Eu recomendaria a leitura de três livros: O Nascimento da Inteligência, A Formação do Real e A Formação do Símbolo.

– Piaget não levou os educadores a se preocuparem apenas com os estágios de desenvolvimento da criança?

Uma leitura mais apressada dos seus livros levou a isso e provocou críticas a ele. Se lemos Piaget buscando estágios de maturação, só vamos encontrar isso. Ele criou a seriação das etapas para mostrar que existem níveis de desenvolvimento e caracterizar as diferenças qualitativas. A seriação não é para estabelecer degraus, nem para dizer que a criança tem que estar neste ou naquele estágio. Mas isso não é muito importante em sua obra.

– Até porque as diferenças subsistem num mesmo indivíduo…

– E não é só isso. A leitura maturacionista – essa que focaliza o grau de amadurecimento das crianças – nega o papel do meio ambiente, pois imagina um processo de dentro para fora. Piaget nunca imaginou isso.

– Podemos dizer que foi feita uma importação superficial de Piaget?

– Nem tanto. Na verdade, as idéias de Piaget vieram embutidas na proposta da Escola Nova, que se inspirou no educador suiço Claparède, nas idéias da escola ativa. Eram idéias generosas do ponto de vista da ética, mas não havia clareza sobre os processos de aprendizagem. A Escola Nova também foi criticada por ter um discurso de esquerda, mas um papel que acabava sendo de direita, porque não ajudava as pessoas que precisavam da escola a sair da exclusão. Até os anos 70, por isso tudo, o construtivismo estava presente nas discussões teóricas, mas ausente da escola.

– Como estava a escola, nessa década, do ponto de vista dos processos de aprendizagem?

– O ensino dos primeiros anos da escolaridade mergulhou numa dispersão de criatividade e as crianças não aprendiam o que deveriam aprender.

Em que momento Piaget entrou para valer nas escolas brasileiras?

– Nos últimos 15 anos, começou-se a trabalhar com a teoria piagetiana como uma teoria geral dos processos de aprendizagem e construção do conhecimento. Na hora em que se pára de pensar em estágios e coisas do tipo, a teoria começa a responder a questões que estavam sem resposta. Vygotsky dizia que não se aprenderia a ensinar os meninos a ler e escrever enquanto não se descobrisse a pré-história dessa aprendizagem.

– É aí que entra a questão colocada por Emília Ferreiro? O que acontece quando a criança aprende a ler e escrever?

– Sim, o que Emília Ferreiro fez foi descobrir a história dessa aprendizagem. E, na hora em que ela descobre isso, temos algo que revolucionou a percepção dos educadores. Pelo menos do pensamento de vanguarda. Ela fez perguntas piagetianas sobre um tipo de aprendizagem que, mesmo os piagetianos, olhavam como se não fosse construção.

– Que aprendizagens?

– Pensava-se que a lógica é construída, o número é construído, a causalidade, o tempo, todas as categorias da razão são construídas. Mas que aprender a escrever o próprio nome, aprender a somar, isso não era construído. Isso seria ensinado. Haveria coisas que se aprende, como a falar. Mas o ler era ensinado. Quando você muda a pergunta, como Emília fez, tudo muda.

– Por que tudo muda?

– Em vez de indagar como se deve ensinar a escrever, ela perguntou como alguém aprende a ler e escrever, independente do ensino. Ela considerou uma coisa que todos sabiam: que muitas crianças chegam na escola, antes do ensino oficial, já alfabetizadas. As crianças lêem, mas não estão socialmente autorizadas a fazer isso, antes do professor ensinar. Na verdade, os meninos trabalham muito para construir esse conhecimento, que acaba não reconhecido pela escola.

Por que o construtivismo voltou a ser discutido? Por que agora foi incorporado nas propostas do MEC?

– Porque ele oferece, a quem tem indagações, uma ferramenta para entender o processo de ensino de um ponto de vista diferente do que tínhamos antes. Se pensamos o ensino como uma estratégia para encher o vazio que há na cabeça dos alunos, temos um tipo de questão educativa. Se pensamos como a construção de situações de aprendizagem dentro das quais o aprendiz vai produzir seu conhecimento, temos uma situação mais complexa. E mais eficaz. Na verdade, o professor, que tenta preencher a cabeça do aluno como se fosse uma caixa vazia, está cego, dialogando com alguém que lhe é completamente desconhecido.

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