Agência chama criança de Pateta para vender viagem
9 09UTC Maio 09UTC 2010 at 21:24 Publicar um comentário
20/04/2010
Renata, 11, combinava com uma amiga viajar em julho para a Disney. Questionada pela mãe, que não sabia de excursão nenhuma, a menina pegou uma pasta com preços do pacote turístico e uma foto em que, ao lado da colega e de um boneco do personagem Mickey Mouse, segurava a placa com os dizeres: “Se eu não for para a Disney vou ser um Pateta”.
A pasta foi entregue na escola onde a menina estuda, o Liceu Di Thiene, em São Caetano(Grande São Paulo), no começo do mês passado. Era uma promoção da agência de viagens “Trip&Fun”, que organiza viagens de crianças e adolescentes também para Cancún, Bariloche e Costa do Sauipe.
Com a publicidade que já levou o personagem da Disney para dentro de mais de dez escolas, e tira fotos com as crianças segurando plaquinhas como a do Pateta, a agência levaráem julho cerca de mil criançaspara o parque em Orlando. Os pacotes custam a partir de R$5.216, para 13 dias em quarto quádruplo (o mais barato).
“Quer dizer que você é uma pateta porque você não vai?”,perguntou à filha Renata a pedagoga Roberta, 40.
A menina diz que ficou triste. “Queria muito ir. Quase todomundo da sala vai”, conta. Para a mãe, que fala em processar a agência, o sentimento predominante foi a vergonha em relação aos colegas. “Ela ficou claramente constrangida.”
A agência e a escola afirmam que não pretendiam constranger ninguém e que a placa do Pateta era apenas uma brincadeira.
O promotor da área do consumidor João Lopes Guimarães Júnior diz que o caso ilustra bem os abusos na publicidade infantil. “De uma turma de cem crianças, 80 vão viajar. As que não vão, porque os pais não
querem ou não têm dinheiro,serão chamadas de Pateta. Já temos problemas sério de bullying nas escolas. Essa empresa está criando uma situação propícia para isso. Como se pode falar em preservação da imagem da criança com esse tipo de publicidade?”, diz.
Publicidade infantil
Para o promotor, a ação da agência de turismo fere os artigos 15 e 17 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que prezam pelo “respeito à dignidade e a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente”.
O Instituto Alana, ONG que trabalha para regulamentar a publicidade infantil, critica as ações em escolas. “Muitas vezes, acontece e o pai nem sabe. É absurdo isso ser feito dentro das escolas”, diz Laís Fontene lle Pereira, coordenadora de educação da ONG.
O Conar (conselho de autor regulamentação publicitária) já baniu propagandas por considerá-las desrespeitosas, como uma do ovo de Páscoa Trakinas, de abril de 2008, que dizia: “Quem não dá ovo é um mané”.
Folha de S. Paulo, Cotidiano, 20/4/2010
Link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u723037.shtml
Outro lado
Para agência e escola, placa é só brincadeira
A agência Trip&Fun afirmou que a placa que as crianças do Liceu Di Thiene e mais de outras dez escolas seguravam na foto e que faziam referência ao Pateta era apenas uma brincadeira. A empresa disse também que recebeu uma reclamação de uma mãe de aluno do colégio e imediatamente excluiu a placa com esses dizeres da promoção nas escolas.
Henrico Esichiel, diretor de marketing da agência, afirmou ontem que a campanha nas escolas oferece aos estudantes “outras opções de placas”. Entre elas, as que dizem: “Mãe, quero conhecer o Mickey de verdade” e “Meu presente de Natal já escolhi, ir para a Disney com a Trip&Fun”.
“Os alunos escolhem a que eles querem segurar. [A do Pateta] é a mais popular, a que eles acham mais legal”, diz.
A empresa diz que a promoção já aconteceu em pelo menos dez escolas e, na metade delas, a placa foi usada.
A aluna Renata confirma que escolheu a placa. “Era a mais legal. O Pateta é o de que eu mais gosto, é o mais engraçado.”
Escola
O Liceu Di Thiene diz que uma coordenadora da escola acompanhava as crianças na hora das fotos, mas que ela não viu nada de errado na frase.
“Ela não viu a mensagem da forma [pejorativa] que está sendo colocada”, diz um dos diretores da instituição, Eleandro Monteiro.
“Eu não entendo que o Pateta é um pateta. Pateta é o nome de um personagem. Vocês estão criando um negócio que é absurdo”, complementa.
Ele disse, no entanto, que, ao receber uma reclamação de uma mãe, entrou em contato com a agência e pediu para que a placa deixasse de ser usada.
“[A placa] não tinha a intenção de constranger ninguém.
Só uma mãe me questionou, nenhuma criança levou isso tão a sério”, diz o diretor. A mãe de Renata disse que não foi ela quem levou o caso do Pateta à direção do colégio.
O colégio cobra mensalidades em média de R$ 500 no ensino fundamental e tem cerca de 400 alunos.
“Nenhuma criança chamou a outra [de Pateta]. O perigo de tudo isso é essa mãe [que fez a denúncia à Folha] expor a criança dessa forma.”
Colaboraram FERNANDO ITOKAZU, da Reportagem Local, GUILHERME GENESTRETI e LUIZ GUSTAVO CRISTINO
Folha de S. Paulo, Cotidiano, 20/4/2010
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2004201003.htm
ANÁLISE
Para que se educa?
Por Michelle Prazeres*
No ato de uma empresa de turismo usar escolas como mídias para divulgar viagens à Disney está em jogo, acima de tudo, uma concepção de educação. Para que educamos? Para o desenvolvimento? Para o crescimento? Para sermos bem-sucedidos no mercado de trabalho? Para a vaidade e o hedonismo? Para a cidadania e a dignidade? Ou a ênfase está na formação de consumidores?
Interessa aqui discutir a educação como processo amplo de formação dos indivíduos, socializados por influência de múltiplas matrizes culturais, que transmitem valores, visões de mundo, saberes e percepções.
Na modernidade, as mídias e a publicidade despontam como matrizes que -com a família, a escola, os grupos de pares, os colegas de trabalho e outras instituições- são responsáveis pela formação das pessoas.
Nessa iniciativa, a escola se alinha ao discurso do consumismo que vemos hoje em dia, em especial na mídia dirigida a crianças. Quando a escola se entrega a esse projeto, fica comprometido o seu papel enquanto reduto de reflexão e o sentido da educação como processo de preparação para a vida.
A escola é o lugar do saber legítimo, que se crê oficialmente importante para ser passado. O problema é que, historicamente, esse saber é produto de disputas de poder nem sempre democráticas. E se, nos tempos modernos, um dos vetores de poder é a publicidade (o mercado), seria “natural” que ela estivesse na escola.
Mas, se o “clima pró-consumo” já existe em tantas outras instâncias, a escola deve reforçá-lo? Ceder ao apelo publicitário é empobrecer o sentido humano da educação. E esse sentido enxerga nas crianças outras possibilidades além de consumidores: leitores, produtores de conhecimento, investigadores, críticos, lúdicos etc.
Hoje, todo espaço público, todo corpo pode virar um meio de divulgar uma marca. Na escola, a criança percebe aquele discurso como positivo e, mais grave, que tem o respaldo de pessoas em quem ela e os pais confiam. E tudo de maneira dócil. Por isso não nos causa incômodo. Mas deveria incomodar.
*Michelle Prazeres, jornalista, desenvolve pesquisa sobre a entrada das mídias nas escolas em doutorado na Faculdade de Educação da USP.
Folha de S. Paulo, Cotidiano, 20/4/2010
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2004201004.htm
entrevista
“Escola é diferente de shopping”
Para João Matta, professor de publicidade infantil da ESPM, há excesso de moralismo nos que criticam a publicidade para crianças e pedem seu banimento. Ele afirma, porém, que a escola é “um espaço que precisa ser preservado”. “É diferente de um shopping.” (TB)
FOLHA – Por que fazer publicidade para criança?
JOÃO MATTA - Quando você tem uma publicidade feita para a criança, também indiretamente atinge o pai. O que se busca na publicidade infantil é o envolvimento da criança no mercado consumidor porque ela é uma consumidora. Há produtos em cuja compra a criança influencia muito mais, como no caso dos brinquedos.
FOLHA – Como vê as críticas à publicidade infantil?
MATTA - O que me preocupa é um excesso de moralismo em relação ao público infantil, desprezando um pouco a capacidade dele. É lamentável [defender que não haja propaganda para crianças]. A criança não tem só o estímulo do produto infantil. Ela assiste à novela das oito, ela tem acesso ao noticiário, viu a simulação da morte da Isabella [Nardoni] na TV mais de 50 vezes, que é absurdamente mais agressivo que uma propaganda que fale para ela comer uma maçã, que a propaganda de uma boneca.
Mas na escola tenho uma visão mais pragmática. É um espaço que precisa ser preservado. É diferente de um shopping.
Folha de S. Paulo, Cotidiano, 20/4/2010
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2004201005.htm
Fonte: Instituto Alana – notícias
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